Depois de quinze minutos, ela surge. E vai direto para o banco. Não o de sentar, mas aqueles caixas rápidos de sacar dinheiro.
Fica lá por outros dez minutos.
O que gera a dúvida: será que o caixa estava inoperante ou a conta dela que não estava operando legal?
Ela sai do caixa eletrônico com um semblante que não a entregava.
Se estava com a conta no vermelho ou se tinha conseguido sacar 10 reais era impossível saber.
No balcão da cantina, ela conversa com o chapeiro em um tom mais baixo que o de todos que falavam ali perto.
Fiado? Misto quente? Mais queijo?
Mesmo quem estava muito perto não ouvia o que eles falavam.
Mas ao invés de uma coxinha, ele entrega a ela uma Bic. Ela agradece com um esboço de sorriso.
Sentada numa mesa, Viviane tira do bolso um maço de notas de cinco reais, que vieram de qualquer igreja, menos do caixa do banco Real.
Ela estica as notas uma a uma sobre a mesa.
Viviane tem essa mania, todo começo de ano ela entrega a alguns amigos uma nota de valor baixo com uma mensagem. É muito generosa, alguns acreditam.
Começa a escrever .
Sem o mínimo senso de cidadania e respeito à moeda nacional, ela discorre sobre a figura de uma garça (Casmerodius albus), ave pernalta (família dos ardeídeos), frases do tipo: quem pegar essa nota deve guardá-la por 2 meses antes de passá-la para frente. Do contrário, sua carteira ficará sempre vazia ou não encontrará um único lugar que o aceite mesmo que trabalhando de graça e/ou poderá ficar broxa pelo período de sete anos ( período comumente usado em assuntos místicos e nebulosos).
Termina de escrever, fecha a caneta e olha calmamente com sua sobrancelha de circunflexo para todos que comem e conversam distraidamente a sua volta.
Eles não sabiam, mas naquele momento Viviane escolhia suas melhores intenções para os queridos colegas.
